A crise das lesões do ligamento cruzado anterior no futebol feminino

À medida que a popularidade do futebol feminino continua crescendo, o mesmo ocorre com as lesões graves do joelho. O que está acontecendo e como o risco pode ser reduzido?

janeiro 2026

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“Sensação é de uma martelada no joelho”
A crise das lesões do ligamento cruzado anterior no futebol feminino

À medida que a popularidade do futebol feminino continua crescendo, o mesmo ocorre com as lesões graves do joelho. O que está acontecendo e como o risco pode ser reduzido?

Lesões do joelho – especificamente do ligamento cruzado anterior (LCA) – são manchetes frequentes no mundo do futebol feminino.

Uma matéria publicada em fevereiro de 2024 no jornal britânico The Guardian aponta que as jogadoras de futebol feminino têm oito vezes mais chances de sofrer lesão no LCA do que seus colegas do futebol masculino – são 37 as jogadoras que ficaram de fora da última Copa do Mundo por esse motivo. A vencedora do troféu Ballon d’Or de 2019 Megan Rapinoe, já afastada dos gramados, sofreu três lesões no LCA durante a sua carreira; a ex-jogadora do Chelsea e da seleção inglesa Claire Rafferty sofreu duas lesões e muitas jogadoras atualmente estão fora de ação pelo mesmo motivo. A capitã da seleção inglesa Leah Williamson, que só em janeiro deste ano voltou a jogar, declarou sentir que “alguém tinha cortado os dois lados e acertado uma martelada bem no meio do joelho”.¹

O LCA conecta o fêmur à tíbia e é um dos ligamentos que estabilizam a articulação do joelho. No esporte, as rupturas são comuns em incidentes sem bola, por torção ou durante o pouso em uma única perna.¹

Com um tempo mínimo de recuperação de cerca de nove meses, que muitas vezes chega a um ano, é uma das piores lesões que um jogador pode sofrer. A matéria cita a pesquisa de doutorado da Dra. Gillian Weir, biomecânica sênior do New York Yankees, sobre lesões do LCA.1 A pesquisa foi conduzida em colaboração com a equipe australiana de hóquei feminino, que sofreu quatro lesões do LCA antes das Olimpíadas de 2012, e procurou desenvolver uma intervenção de treinamento que fosse baseada em princípios biomecânicos.¹ ²

Os resultados do programa de treinamento de prevenção de lesões de dois anos foram impressionantes. Houve redução nas lesões do LCA e dos membros inferiores. Na verdade, não houve nenhuma lesão do LCA ao longo dos dois anos entre o grupo de 26 jogadoras.¹ ²

Talvez a contribuição mais significativa para a onda de lesões do LCA nos últimos anos seja a profissionalização e, consequentemente, o aumento do número de jogos para os quais as jogadoras são escaladas. Os jogadores do sexo masculino jogam números similares de partidas, se não mais, mas foram condicionados em ambientes de elite com o melhor treinamento de força e condicionamento desde que tinham, em alguns casos, cinco ou seis anos de idade. Em contrapartida, para a esmagadora maioria das jogadoras, ser atleta profissional é uma experiência relativamente nova e os seus corpos não foram tão bem condicionados para tais exigências.¹

A União das Associações Europeias de Futebol (UEFA) anunciou um novo programa para compreender melhor as lesões do LCA; enquanto a Associação de Clubes Europeus (ECA) vem pesquisando o impacto das chuteiras específicas para mulheres. Contudo, é preciso que tais iniciativas também levem em conta o calendário de jogos, o tamanho dos plantéis, a saúde mental das jogadoras e a instalação de centros de treinamento bem equipados.¹

Um estudo americano relata incidência anual de 68,6 casos por 100.000 habitantes na população geral.³ A incidência foi significativamente mais alta nos homens do que nas mulheres (81,7 vs. 55,3 por 100.000, P < 0,001), mas diminuiu significativamente ao longo do tempo entre os homens (P < 0,001), enquanto nas mulheres permaneceu estável.³ Entre os atletas, o risco é consideravelmente mais alto que o da população geral, particularmente em certas modalidades esportivas, como futebol e basquetebol.⁴ Atletas do sexo feminino têm risco até oito vezes mais alto de sofrerem lesões do LCA, comparadas aos atletas masculinos do mesmo esporte.⁵

Uma revisão sistemática e metanálise publicada em agosto de 2023 comparou a reconstrução cirúrgica precoce à reabilitação em pacientes com ruptura do LCA.⁶ O trabalho incluiu seis estudos clínicos, envolvendo ao todo 691 pacientes, e destaca a importância da intervenção cirúrgica precoce para melhora funcional do joelho, alívio da dor e retorno à prática esportiva, embora a reabilitação fisioterápica tenha mostrado resultados comparáveis em desfechos como os escores Lysholm e Tegner.⁶

Referências bibliográficas

1. Suzanne Wrack. ‘It felt like somebody had hit a hammer through my knee’: the crisis of ACL injuries in women’s football. The Guardian, Feb 10, 2024. [internet] Available: https://www.theguardian.com/lifeandstyle/2024/feb/10/it-felt-like-somebody-had-hit-a-hammer-through-my-knee-the-crisis-of-acl-injuries-in-womens-football. Access: 30/01/25.

2. Weir G, Alderson JA, Elliott BC, et al. A 2-yr Biomechanically Informed ACL Injury Prevention Training Intervention in Female Field Hockey Players. Transl J Am Coll Sports Med. 2019;4(19):206-14.

3. Sanders TL, Maradit Kremers H, Bryan AJ, et al. Incidence of Anterior Cruciate Ligament Tears and Reconstruction: A 21-Year Population-Based Study. Am J Sports Med. 2016 Jun;44(6):1502-7.

4. Gornitzky AL, Lott A, Yellin JL, et al. Sport-Specific Yearly Risk and Incidence of Anterior Cruciate Ligament Tears in High School Athletes: A Systematic Review and Meta-analysis. Am J Sports Med. 2016 Oct;44(10):2716-2723.

5. Gianakos AL, Arias C, Batailler C, et al. Sex specific considerations in anterior cruciate ligament injuries in the female athlete: State of the art. J ISAKOS. 2024 Dec;9(6):100325.

6. Dahduli OS, AlHossan AM, Al Rushud MA, et al. Early Surgical Reconstruction Versus Rehabilitation for Patients With Anterior Cruciate Ligament Rupture: A Systematic Review and Meta-Analysis. Cureus. 2023 Aug 12;15(8):e43370.

MNP-00095