Uma edição especial da revista Frontiers in Pain Research, intitulada Insights in Pain Mechanisms, reuniu cinco artigos inovadores que discutem avanços no conhecimento da dor e dos mecanismos da dor crônica, incluindo modelos teóricos da dor, vias neuroimunológicas e gliais, o papel da mitocôndria, os tipos de dor crônica, como a dor neuropática e a dor artrítica, e novas opções terapêuticas para manejo da dor.² ⁷
Teoria da dor¹
O primeiro artigo, do Dr. Serge Marchand, editor-chefe da seção de Mecanismos da Dor do periódico, resume a evolução da teoria da dor e discute diferenças entre as teorias de especificidade, padrão e da comporta (gate control). O autor também discute o importante papel do controle inibitório nociceptivo difuso e teorias mais recentes, como a “matriz da dor”, a dor como emoção homeostática, a interação entre mecanismos inibitórios e excitatórios endógenos e o papel de fatores genéticos nos fenômenos dolorosos.³
Com base na leitura do ensaio, é possível perceber como os tratamentos propostos ao longo do tempo baseiam-se nas teorias prevalentes em cada época. A sangria era aceita como tratamento eficaz quando a dor era percebida como um “invasor” que queríamos extrair do organismo. Segundo o autor, a sangria funcionava porque a incisão era dolorosa, produzindo uma analgesia por contrairritação e um forte efeito-placebo, reforçando a teoria de que algo no sangue deveria ser expurgado. As teorias da dor modernas concentram-se no sistema nervoso, desde a periferia até parte central. As teorias dos padrões apontam as estruturas do sistema nervoso e a modulação de sua atividade como responsáveis pelas nossas percepções dolorosas.³
Mecanismos neuro imunológicos e gliais⁴
Dentre os artigos, há uma revisão do papel dos mecanismos neuroimunológicos e gliais na dor artrítica, da Dra. Maripat Corr e colaboradores, da Universidade da Califórnia em San Diego e San Francisco (EUA). Os autores discutem o papel dos macrófagos e das células gliais das articulações periféricas na artrite reumatoide (AR), um dos tipos de artrite inflamatória mais estudados. Segundo o artigo, essas células não neuronais são fundamentais no aparecimento e manutenção da dor associada à artrite. Vários modelos de artrite em camundongos e ratos são resumidos, incluindo a inflamação monoarticular induzida por injeção do adjuvante completo de Freund (CFA) no joelho ou tornozelo. A revisão também discute a sinalização nos gânglios da raiz dorsal (GRD) envolvendo citocinas, macrófagos, células gliais satélite, microglia e astrócitos. O conceito de “cérebro artrítico” também é mencionado para chamar a atenção para a relevância de comorbidades como depressão e ansiedade em pacientes com AR. Finalmente, são apresentadas possíveis opções de tratamento direcionadas ao sistema nervoso periférico e central.
Importância da mitocôndria na dor⁵
O grupo do Dr. Niels Eijkelkamp, da Universidade de Utrecht, na Holanda, apresenta um sumário dos últimos achados sobre o papel da mitocôndria na dor inflamatória e neuropática em uma revisão detalhada. Os autores discutem como a disfunção mitocondrial pode conectar a inflamação à sensibilização neuronal e à dor subsequente. A mitocôndria tem ação essencial na regulação das respostas inflamatórias, mas também regula o disparo do potencial de ação e a liberação dos neurotransmissores. Dada a elevada demanda energética dos neurônios, a sobrecarga mitocondrial pode levar à disfunção desta organela e danos às células nervosas. A contribuição dessa disfunção para os processos relacionados à dor é relacionada, no texto, aos efeitos na respiração mitocondrial,estresse oxidativo, tamponamento de Ca2+, ativação do inflassomo, mecanismos de controle de qualidade como mitofagia, biogênese mitocondrial, fusão e fissão, além de mecanismos de transporte. A revisão também discute como a disfunção mitocondrial pode afetar células não neuronais em doenças reumáticas. São mencionadas abordagens promissoras para corrigir a disfunção mitocondrial como possíveis tratamentos para a dor.
Dor neuropática⁶
Dr. Peter Smith apresenta uma revisão sobre dor neuropática, um tipo de dor crônica resultante de lesão ou doença do sistema nervoso. Essa forma geralmente intratável de dor crônica envolve células neuronais, gliais e imunológicas de tipos diversos. A revisão inclui uma discussão sobre regiões cerebrais superiores como o tálamo, e os córtices cingulado e sensorial. O autor ressalta que, apesar de numerosos estudos experimentais, esse campo de pesquisas ainda não levou avanços terapêuticos importantes à prática clínica. As possíveis razões descritas incluem o uso apenas de roedores machos nos estudos, diferenças no processamento da dor entre roedores e humanos e falta de estratificação dos fenótipos de dor humana em estudos clínicos. Os estudos futuros precisarão levar em conta esses fatores.
Abordagens não farmacológicas para manejo da dor⁷
O Dr. Manoj Sivan e colaboradores, da Universidade de Manchester (Reino Unido) e outras instituições, apresentam dados que mostram que o jejum agudo reduz a tolerância à dor em indivíduos saudáveis. Como o consumo de alimentos tem sido associado à analgesia, o grupo decidiu investigar essa relação em seres humanos. Ao todo, 25 participantes foram recrutados e submetidos a sessões sem jejum ou com jejum de 12 horas. A dor foi avaliada por meio do teste de estresse ao frio (CPT, do original cold pressor test). A tolerância à dor foi avaliada por meio do teste Stroop, nos estados de atenção e distração. Além disso, dados sobre o humor e a fome foram coletados por meio do Perfil dos Estados de Humor (POMS) e de uma escala de fome de 10 pontos. Os resultados mostraram que o jejum agudo reduziu a tolerância à dor em indivíduos saudáveis e que os efeitos foram independentes do sexo, atenção ou humor. Os autores recomendam mais estudos desse tipo em indivíduos com dor crônica para explorar o jejum como opção de tratamento não farmacológico.